A corrente e o verdadeiro motivo de irmos ao Terreiro
Quando fundei, juntamente com a Mãe Gabriela de Yemanjá, o Terreiro Águia Prateada em Luxemburgo, imaginava algo pequeno, intimista, até certo ponto fechado. Acreditava que uma meia dúzia de imigrantes brasileiros, que já frequentavam a Umbanda pudesse se associar a nós.
Após uma extensiva pesquisa, tanto no "mundo real" quanto na esfera virtual, nos demos conta de que era o primeiro terreiro de Umbanda de Luxemburgo e região. Como tal, era difícil prever. Trazíamos do Brasil aquela bagagem de ser visto com um misto de curiosidade e preconceito.
Contudo, o que ocorreu não poderia ser mais diferente do que imaginávamos. Desde então, centenas de pessoas já nos procuraram, seja para participar das giras, ou simplesmente consultar com as entidades. Também a ideia de que seriam somente brasileiros não podia estar mais longe da realidade. A comunidade portuguesa e cabo-verdiana nos acolheu muito bem. Também alguns belgas, franceses, luxemburgueses, inclusive que vieram a fazer parte da nossa corrente.
Concordo que para além da espiritualidade em si, um Terreiro é, também, uma comunidade. E a vida associativa nunca esteve fora dos meus planos. Muito pelo contrário, esta tem sido limitada apenas por restrições de espaço físico mesmo. Desde pessoas que buscam ter algum contato com sua cultura original, a outros onde, por vezes, o Terreiro acaba sendo seu único ponto de vida social, acho que todos nós nos beneficiamos deste contato. Fazemos boas amizades. Rendemos boas conversas. Trocamos experiências.
Entretanto, quando falamos de Terreiro, a primeira coisa que nos deve vir em mente é: um terreiro é um templo religioso. Um terreiro surge, antes de tudo, pela espiritualidade. E é esse o motivo principal que nos deve manter na casa.
Todos nós apreciamos a convivência, mas não podemos nos esquecer de que, nos dias de gira, o foco não é na amizade, na comida ou na conversa. O foco é nos Orixás e entidades espirituais.
Em dia de gira, não interessa quem é amigo de quem, quem convive com quem ou quem é parente de quem. Existe um Pai e uma Mãe de Santo. Existem as pessoas que compõe a Hierarquia da casa. No momento em que se veste o uniforme e se coloca as guias, deixamos de ser o casal, o pai e o filho, o grupo de amigos, e nos tornamos A Corrente. É importante saber separar as coisas.
Da mesma forma, mesmo que o Terreiro funcione como uma sociedade, no dia da gira, nossa mente deve estar plenamente focada no espiritual e nas linhas que serão ali trabalhadas. Nas tarefas que devem ser feitas. No sagrado.
Em um segundo plano, certamente, todos nós podemos nos beneficiar da vida associativa e comunitária que o Terreiro proporciona. É onde acabamos fazendo os melhores amigos, é onde encontramos apoio, e até mesmo oportunidades. Em uma comunidade onde seus membros se apoiam mutualmente, crescem todos.
Deixo esse pequeno texto de reflexão e desejo muito axé a todos!
Babalorixá Luiz de Ogum